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ENTREVISTA - Niemeyer: il mio incontro
Por Leopoldo Schettino



Leopoldo Schettino (Leo para os mais íntimos) é um jovem arquiteto italiano, apaixonado pela Arquitetura Brasileira. Estudou na Faculdade do Porto com mestres como Siza e lá conheceu o Fabio Memoria (autor de Janelas de Berlim e Museu Judaico) que nos apresentou.
Idealista, veio para o Brasil ao encontro de seus mitos: cidades como Brasília, e arquitetos como Paulo Mendes da Rocha em São Paulo. O que vocês lerão abaixo é um relato emocionado de um “menino” diante de outro “menino-ídolo”, tão sonhador quanto ele (a alma não envelhece)- NIEMEYER, a quem buscou conhecer sem se intimidar diante do profissional de fama internacional, que chama, respeitosamente, de “La STORIA”.


OBS.Mantive este texto na sua versão original, pois traduções perdem a doçura da emoção. Para quem não 'capisca' o italiano, tive o cuidado de introduzir imagens legendadas que acompanharão os meandros desta aventura-homenagem. Não é uma tradução, mas um diálogo sussurrado nas entrelinhas. Quem compreender os dois idiomas só terá a ganhar.



Rio de Janeiro, in una mattina calda dell’inverno brasileiro...sono seduto su di una panchina di fronte alla spiaggia di Copacabana, appoggiato ad una scultura di bronzo che ritrae un poeta che non conosco ma la scritta incisa nel marmo dice: “No mar estava escrita uma cidade” (“nel mare c’era scritta una città”) - Carlos Drummond de Andrade.


Estátua do Drummond sentado num banco da Av. Atlântica, próximo ao escritório do Niemeyer. Nosso poeta maior já foi citado neste site em LIZZE, Souzanetto e Luz dos olhos.
O famoso calçadão de Copacabana foi desenhado pelo grande inovador paisagista Burle Marx, imortalizado por seus projetos da Pampulha e Aterro do Flamengo.



Il cielo è azzurro e là sull’orizzonte, dove il mare si incontra con la città, o “Pão de Açucar” (il monte “Pan di Zucchero”) marca autoritario la propria presenza. Eppure, niente di tutto questo, neppure la calçada de Burle Marx - il famoso disegno che caratterizza il lungomare di Copacabana - mi emoziona tanto quanto quello che mi è successo questa mattina, alle 9:30, in questo stesso luogo ricco di suggestioni.


Então (e quindi) facciamo un passo indietro, come direbbero i cineasti, facciamo un flash-back... che cos’è che rende oggi tutto minore rispetto a quello che è sempre?
Un 'vecchietto', un omino di 99 anni, ben poca cosa a cospetto di tanta maravilhosa natureza...e allora cosa rende speciale quest’uomo?
Si chiama Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares, tutti lo chiamano solo OSCAR NIEMEYER.


Scende dalla sua Mercedes bianca difronte al numero 3940 da Avenida Atlântica, edificio Ypiranga, dalle balconate curve, dalle vetrate che guardano verso il mare. Mi avvicino a lui dicendo: “Mestre, sou Italiano, vim pra te conhecer”. (Maestro, sono Italiano, sono qui per conoscerlo) E lui: “Muito prazer em te conhecer, vamos lá em cima, e a gente fala...” (Molto piacere di conoscerti, andiamo sopra per conversare...) E cosi è stato...salendo nell’ascensore, in compagnia della STORIA, me senti, mais perto do Redentor.



Nesta foto do MAC (Museu de Arte Contemporânea) tirada por Leo em Niterói, vê-se ao fundo a bela paisagem do Rio de Janeiro com suas famosas montanhas – o Pão de Açucar e o Corcovado. (“Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara...”)


“Não é o ângulo reto que me atrai, mas a curva livre e sensual que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar.”


L’ascensore si ferma all’ultimo piano, ma dobbiam salire a piedi alcuni gradini. L’assistente lo aiuta e apre la porta dello studio. Pareti bianche, con disegni schizzati direttamente da lui, un sofà ricurvo che accompagna una grande vetrata che inquadra la baia di Copacabana.
Mi lascia nella sala per alcuni istanti e poi mi chiama facendomi accomodare in una piccola stanza, senza finestre, con le pareti “tappezzate di libri”, una scrivania e due sedie.



No escritório do último andar do edifício Ypiranga, com janelas curvas que enquadram Copacabana, as paredes brancas estampam croquis do Mestre. Já no seu Studio íntimo, onde se acomodou com Leo para conversarem, o clima era outro – escuro, sem janelas, paredes cobertas de livros, uma escrivaninha e duas cadeiras, além do cafezinho oferecido e esquecido, entretidos com o bate-papo.


Mi invita a sedermi, mi offre um caffè e dice: “Eu trabalho sozinho. Acho que a arquitetura é muito pessoal... eu penso no projeto, e depois, com ajuda do meu neto Jair, passo os desenhos já prontos para o escritório da minha neta, Ana, para o detalhamento. Mas eles não podem mexer em nada, já está tudo pronto. Se tiver um problema, eles me chamam e a gente conversa.” (“Io lavoro da solo. Penso che la progettazione sia un processo intimo ... penso al progetto e dopo, com l’aiuto di mio nipote Jair, inoltro i disegni finiti allo studio di mia nipote, Ana, per realizzare i disegni esecutivi di dettaglio. Ma nessuno può permettersi di cambiare niente, io definisco il progetto in tutte le sue parti. Se c’è qualche problema, mi chiamano e ne parliamo insieme.”)



Dentre os desafios mais recentes, este auditório é um dos que mais o interessaram, por se tratar de um projeto no exterior, debruçado sobre o mar, numa das cidades mais bonitas da Itália: Ravello (2003)


“Na folha branca de papel faço o meu risco.
Retas e curvas entrelaçadas,
E prossigo atento e tudo arrisco
Na procura das formas desejadas.”



O 'velhinho' (il vecchietto), apre un pacchetto di charutos (sigari), e tenta di accenderne uno...non ci riesce, ci vede poco, mi offro di aiutarlo...e gli accendo il sigaro. Rimango sorpreso e dico: “Nossa, nunca imaginei que você ainda conseguisse fumar!” (“Accidenti, non pensavo che lei riuscisse ancora a fumare! E lui, con fare simpatico, mi dice: “Achava que eu estivesse tão caído assim?!” (“Pensavi che fossi cosi mal ridotto?!)...e mi sorride.



Aqui podemos ver o MAC (1993) em toda sua plenitude e o claro objetivo de não interferir muito na natureza (apesar das linhas futuristas), fazendo-o flutuar, cercado pelos azuis do céu e do mar.
Divaga:


“São templos e palácios soltos pelo ar.
Pássaros alados, o que você quiser.
Mas se os olhar um pouco devagar,
Encontrará, em todos, o encanto da mulher.”



L’ARCHITETTURA NON È LA COSA PIÙ IMPORTANTE, mi dice (i vecchi maestri, quelli prima di lui, dicevano che per essere dei buoni architetti bisognava vivere solo di architettura), È LA VITA LA COSA PIÙ IMPORTANTE! ...lui lo dice sempre.



O sentimento que nos assola ao adentrarmos o interior da Catedral hiperbólica de Brasília (1959), não deixa dúvidas sobre a mensagem que Niemeyer transmite: “A vida é muito mais importante do que a Arquitetura”, resume, ao discorrer sobre o assunto:


“A arquitetura que faço não importa.
O que eu quero é a pobreza superada,
A vida mais feliz, a pátria mais amada”



“Nella vita ho sempre combattuto per i miei ideali, mi dice. L’impegno politico è sempre stato importante...capire la società, i problemi della città e cercare di fare qualcosa per migliorarla, capire gli uomini, la filosofia, la scienza....”



Seu Palácio da Justiça (1962) na capital brasileira demonstra que, para ele, a beleza das suas formas surpreendentes foi sua mais forte ferramenta em seu empenho político na luta pela melhoria e igualdade de condições humanas. E diz:


“Deixo de lado o sonho que sonhava.
A miséria do mundo me revolta.
Quero pouco, muito pouco, quase nada.”



Sono curioso e gli chiedo se quando era più giovane guardava con ammirazione i grandi maestri della sua epoca, come Le Corbusier, come io gurdavo lui in quel momento... “Claro que sim!” (certo che si!) “Erano figure fondamentali per il nostro lavoro, ricordo quando arrivò Le Corbusier a Rio....per noi era come Dio sceso dal cielo. Io sono una persona fortunata, e ho saputo approfittare delle occasioni che mi ha offerto la vita.”



No início de carreira, Niemeyer foi muito influenciado pelas idéias modernistas de Le Corbusier, que esteve no Brasil por alguns dias para “dar o partido” do novo edifício do MEC: estrutura independente sobre pilotis, fachada livre para os panos de vidro, brises-soleils no controle da iluminação, laje-jardim (leiam as polêmicas sobre os bastidores do concurso idealizado por Gustavo Capanema).


Continua a parlare di architettura, che ogni architetto deve cercare il proprio linguaggio. Oscar mi dice che segue le regole del cemento armato - sono le potenzialità del materiale che gli offrono la possibilità di esprimersi. Le sue curve, quelle que nascono dalla sua matita, non sono gratuite, seguono l’andamento naturale che il luogo suggerisce e che il materiale gli permette di realizzare.



Niemeyer descobriu a potencialidade do concreto armado, e, conseqëntemente sua própria linguagem, ao projetar a Pampulha (1940), por encomenda entusiasmada do presidente Juscelino Kubistchec, abrindo-lhe as portas para os projetos públicos e a fama. Desde então, manteve-se fiel aos seus princípios, como neste levíssimo projeto para a Universidade Constantine na Argélia (1969). Neste complexo substituiu as 22 edificações existentes por apenas 6 blocos (sendo um com 300m de comprimento e pilares a cada 50m), partido que sempre adotou: unidades independentes com formas diferenciadas mas dialogando entre si – com a preocupação básica da circulação e visão amplas entre eles.


Oscar continua a sorprendermi, è uno dei più grandi della storia dell’architettura, ma parla con una semplicità disarmante. Niente paroloni ad effetti, e lui ne sarebbe capace, visto che ama scrivere e comporre versi, nessuna allusione alle curve dei monti di Rio de Janeiro, o a quelle delle donne brasiliane, tanto decantate da lui stesso. È tutto chiaro, il momento ne il tempo di essere poetico di fronte ad un giovane architetto con sete di conoscenza. ”L’architettura sta nella testa, non nella mano”, dice.



Duas cúpulas se entrelaçando – uma como auditório, outra como salão de exposições – solução para o Museu Candido Mendes (RJ/2001).


Mi parla di un progetto che sarà realizzato ad Oviedo, in Spagna, e mi invita a seguirlo alla Prancheta (il tavolo da disegno). Mi mostra dei fogli di carta da schizzo, formato A0, tutto disegnato a mano, ma in scala: sezioni, piante, prospetti, schizzi prospettici... e dice che tutto è pronto, bisogna solo passare in pulito. Mi spiega il progetto con l’entusiasmo di un architetto al suo primo lavoro. L’ultimo foglio mostrava un rendering (disegno tridimensionale fatto al computer). Approfitto per chiedere se a lui piaceva quel tipo di rappresentazione. Risponde: “Por quê não? É mais rápido e substitui uma maquete.” (“Perchè no? È più veloce che realizzare un modellino di legno o di cartone”)


Beh, non avrei mai pensato che la pensasse in questo modo...



Croqui e maquete da Escola de Ballet Bolshoi (Santa Catarina/2003). Apesar de ainda desenhar tudo à mão livre, Niemeyer acredita que hoje, com as novas tecnologias computacionais pode-se substituir o protótipo por um rendering.


Intanto il caffè, gentilmente offerto dal maestro, e che non ho ancora bevuto, si è raffreddato e forse è ancora li sul tavolo... quanti caffè sono stati consumati su quello stesso tavolo, in quello stesso luogo, accompagnando un secolo di architettura... tra quei caffè uno è mio, è stato preparato per me, Leopoldo Schettino, per accompagnare la mia conversazione con Oscar Niemeyer.


È ora di andare, la segretaria è arrivata, inizia la giornata lavorativa del maestro. Gli stringo la mano, lo ringrazio di avermi dedicato una ora della sua lunga vita e lui mi dice: “Prazer em te conhecer, boa sorte, continue animado na busca da sua arquitetura!” (“Piacere di conoscerti, buona fortuna, e continua con questo entusiasmo a cercare la tua architettura!”).


No Oscar, GRAZIE a te, grazie di aver aperto le porte del tuo studio, della tua casa, ad un giovane architetto. La nostra conversazione, il nostro incontro rimarrà sempre impresso dentro di me.


Un giorno berrò quel caffè rimasto intatto sulla tua scrivania, e guardando la baia di Copacabana, mi ricorderò di quel vecchietto che tentò di “cambiare il mondo”!


E-mails recebidos:


ADOREI, ADOREI simplesmente ADOREI!
Obrigado Ignez, e espero que os internautas tambem gostem dessa minha pequena história......
Seu site è muito bem feito, muito intuitivo, e cheio de coisas legais (enclusive meu artigo...ehhehehe)...
Até mais!
Leo


Emocionei-me com o texto do Leopoldo Schettino"Niemeyer: Il mio incontro" Em janeiro deste ano, tive a sorte grande de ver Niemeyer. Tenho 59 anos, moro em Pará de Minas/MG. Posso lhe dizer que foi a realização de um sonho. Falei com ele, na entrada do prédio- de seu escritório, na Av. Atlântica. Eu estava com minha sobrinha Sílvia. Pedimos para fazer uma foto com ele, que consentiu. A grande foto de minha vida, uma preciosadade. Quando cheguei em casa escrevi um artigo sobre ele. Posso lhe enviar o texto? O título é "Sopros de vida".
Muito obrigada. Abraços,
Terezinha Pereira



Obs.Ignez: Fui eu que fiquei emocionada com o texto da autora, que pertence à Academia de Letras da sua cidade. Reproduzo-o na íntegra como forma de agradecimento pela delicadeza de suas palavras:


"Consta em seu registro de nascimento, que foi no dia 15 de dezembro de 1907, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que o grande homem recebeu o primeiro sopro da vida. Como toda criança ao nascer, logo deu seu primeiro choro. Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares precisava do ar para ter a vida.
Hoje, não se importa com o inevitável momento em que dará o último sopro _ e nessa hora, outros serão os que se abrirão em choros. Entende que é vida é um minuto. Deve ser por isso que fugiu de arestas. Nada de quinas, de esquinas, de pontiagudos, nem mesmo de gente de temperamento complicado.
De menino, com o dedo, desenhava formas de nuvens no ar. Percebeu logo a liberdade que lhe dava os espaços da linha curva. Daí, tirou simplicidade, beleza, arte e idéias. Riscou curvas cilíndricas, de cone, entradas, saídas, coberturas e contornos sinuosos e até mesmo, espaços ondulantes, extensos.
No entanto, diante dos risos e choros da vida, preferiu não se curvar. Frente à imprevisibilidade da vida, chora e ri, que a vida é rir e chorar. Faz caso de estar dentro da realidade. Cuida-se de ser um ser de utilidade, solidário. Questiona que, diante da vida, todos estão num mesmo barco e que o espaço entre o primeiro e o último sopro é muito curto. Deve ser por isso que diz “estar livre para construir hoje o passado de amanhã”.
É conhecido no mundo inteiro, pela ousadia que teve de se aproveitar da novidade do concreto armado para fazer executar grandiosidades; monumentos arquitetados com seus riscos singelos, que mudam de direção com suavidade, porém com audácia, como o curso dos rios, as nuvens do céu, as ondas do mar, a silhueta das montanhas de sua terra e até mesmo como o contorno do corpo da mulher preferida. Riscos que fazem brotar do chão verdadeiras esculturas, as quais despertam nas pessoas, quer sejam poderosas ou não, entendedoras de arte ou não, momentos de prazer, de espanto, de surpresa.
Diz que a natureza lhe foi generosa, permitindo-lhe saúde.
Ou teria sido ele mesmo, que teria se aproveitado da genialidade que lhe foi dada pela generosa natureza para, até hoje, fazer de seu trabalho, de suas idéias de igualdade social, do seu jeito de aceitar as pessoas do jeito que elas são, com seus defeitos e qualidades, como o sopro da própria vida?"
(Para Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro e um dos nomes mais importantes da moderna arquitetura mundial, que ficou em nono lugar num resultado de uma pesquisa computada por uma empresa de consultoria global , “Synectics”, que apontou os “100 maiores gênios vivos do mundo atual”. Gênio que, aos 100 anos de vida, ainda trabalha todos os dias no seu escritório de arquitetura em Copacabana, no Rio de Janeiro e recebe as pessoas com a simplicidade de um homem comum, como se essas pessoas fossem as mais importantes.)
 
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