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ENTREVISTA - Enigmática Rizza Conde
Por Ignez ferraz
O papel na/da criação





ـ Como você resumiria seu trabalho em uma palavra?
ـ Podem ser duas?
ـ Pode.
ـ EQUILÍBRIO INSTÁVEL, responde sem hesitar.




Querida Rizza,


Você nunca deve ter visto uma entrevista começar como uma carta.
Eu explico: depois de estar com você por algumas horas neste seu ateliê doméstico e tão aconchegante, fiquei com medo (pela primeira vez) de redigir este artigo. Sabe por quê? Além da “ídola” que sempre foi para mim, você, meticulosamente, procura a palavra certa, o conceito exato na contextualização precisa do que deseja retratar.


E meus textos não são assim. São simples, coloquiais, com leves toques de humor e intimidade. Uma brincadeira prazerosa para mim, uma maneira singela de dizer: admiro seu trabalho, eu gosto de você!


Portanto, por favor, não o leia atenta às possíveis falhas lingüísticas, estilísticas ou técnicas. Lembre-se principalmente que eu não sou jornalista e nem artista (muito menos fotógrafa) – apenas uma arquiteta tentando divulgar minha visão particular da sua Arte.


Um beijo com carinho
Ignez



Rizza Conde se formou em Arquitetura em 1960 e em 68, ao levar seus filhos Marcelo e Marcos (Eliza ainda não havia nascido) para as aulas no Ateliê do Augusto Rodrigues, constatou que também poderia freqüentar algum curso de gravura (nota 1) e optou pela xilo (nota 2).
Foi com grata surpresa que observou como seus desenhos ganhavam uma força inesperada nesta técnica. E a abraçou desde então, sem negar a influência do expressionismo alemão.


Autodidata, teve aulas complementares com Eduardo Sued e posteriormente com Carlos Martins. Chegou a trabalhar com o abstrato, mas gosta mesmo é da figura humana e suas “estórias curiosas”, como diria o “velho Lucio” (Lucio Costa, com quem trabalhou durante seis anos em urbanismo).


Depois da experiência no Ateliê reuniu um grupo de amigos aos sábados em sua casa, e, ligados pela mútua admiração à Nise da Silveira, expressavam através do desenho seus sonhos, fantasias e desejos. Rizza gostava especialmente do carvão e ainda não utilizava a cor.



Rizza na sala do ateliê, envolvida por peças queridas de sua coleção.


Conheci esta arquiteta-urbanista na década de 70 quando freqüentava a FAUSU. A intelectualizada Rizza foi minha professora de Teoria da Arquitetura e, por sorte, como fui convidada para estagiar no escritório do Conde, pude manter o contato.
(Adorava quando era selecionada para trabalhar diretamente com ela, principalmente quando ia até sua casa fazer pesquisas)



Depois de vinte anos exercendo a profissão, resolveu dedicar-se integralmente a sua Arte. Para ela não existem fins de semana ou feriados. Mesmo quando viaja esboça em seus cadernos, para depois transformá-los em projetos definitivos.


Vamos agora ao foco: sua última exposição na Laura Alvim. Convidada em 2005 para expor no ano seguinte, Rizza pôde estudar atentamente o local, e como boa arquiteta que é (esta profissão a gente nunca esquece), preocupou-se com a amplidão da galeria e criou gravuras maiores, proporcionais ao espaço disponível.


Cerca de trinta e cinco gravuras foram distribuídas em três salas: na menor, uma semi-retrospectiva com obras inéditas ou pouco vistas. Fala-me com carinho de Paula Rêgo, artista plástica contemporânea portuguesa, citada no Artbook do MOMA. Depois de visitar sua exposição em Lisboa, conheceu-a em Londres onde é radicada.
A ela Rizza dedica duas destas gravuras.



Homenagem a Paula I – 2000


Já eu, gostei especialmente de uma crítica contundente ao excesso de máquinas nos nossos dias – fotográficas, filmadoras, focos de luz...


Aliás, acho que a crítica em voz baixa, a meio tom (como tudo que fala pausadamente), é o cerne do seu trabalho.


Ela fica bem clara quando entramos no salão principal, onde se encontram as gravuras mais recentes – quase todas em metal (nota 3) e coloridas.

(Apesar de já ter utilizado cores nas xilos, desta vez elas estão mais presentes, destacando-se no conjunto. Para ela, a cor às vezes facilita a compreensão dos planos, podendo realçar as situações.)



Rizza me confidenciou que esta gravura da última fase é uma das suas favoritas. Possui 1.20 m de comprimento na chapa, chegando a 1.50 m emoldurada.


Ao retratar emoções e sentimentos, Rizza aborda o tema da mulher. Ela denuncia a situação em que a constata como um ser frágil, inseguro, competindo de forma desigual numa sociedade moldada para o homem, enriquecida para o homem, investindo e apoiando o homem. Em suma, uma sociedade que privilegia o homem.



Há algum tempo que a artista se (pre)ocupa com a mulher e seus conflitos internos. Reencontrei-a depois de muitos anos no vernissage da sua exposição no MNBA em 2002, onde apresentou a série “Improvisos acrobáticos”. “Sobrevivente II” era uma das gravuras que abordava este tema, que ainda trazia títulos como “Virou a cabeça”, “Tudo foi para o ar” ou “Estado de mulher”.


Na terceira sala, a da varanda, a artista relê em metal obras anteriores de xilo, inclusive introduzindo durante a fase de composição o uso do Photoshop.


ـ Você gostou desta experiência?
ـ Foi interessante, mas nada como a emoção do lápis ou do lápis-cera no croqui que vem no impulso do sentimento.



Com esta afirmação não restou nenhuma dúvida de que Rizza é apaixonada pela sua Arte, a ponto de nos fazer sentir a textura dos seus papéis.


Nota 1: O que é gravura?
Segundo Orlando Da Silva, autor do livro “A arte maior da gravura”, é o corte, a incisão, o sulco, o talhe, feito em material duro (como pedra, madeira ou metal) executado com auxílio de instrumento cortante ou reagente químico, para a execução da matriz e suas cópias. O homem pré-histórico já praticava a gravura, sulcando e arranhando a pedra.


Nota 2: No século II a.C. na China, já se imprimia no pergaminho, mas foi apenas depois da descoberta do papel - por volta do ano 105 - que a madeira cavada (que estampava tecidos) começou a ser utilizada como matriz. Com a divulgação do papel, a tipografia e a xilogravura tiveram grande desenvolvimento. Na Idade Média, esta técnica existia apenas dentro dos livros. Nos tabulares, texto e ilustração eram cavados na mesma tábua.


No Brasil, a xilogravura surgiu em 1873, na oficina de Alfredo Pinheiro, enquanto Henrique Alvim Correa executava em 1904 suas primeiras gravuras em metal. Mas os três artistas que realmente implantaram a gravura no país foram Carlos Oswald, Livio Abramo e Goeldi (vejam um raro exemplar colorido em ANOS JK). Nascidos na transição do século XIX para o século XX, com muita garra e poucos meios, divulgaram e criaram gravuras com técnicas e características originais.


Nota 3: No século XV surgem as primeiras impressões européias sobre papel, e com o Renascimento, a necessidade de outra invenção. Até então a palavra “gravador” não existia. Eram apenas os ourives, os nielattores. O niello era gravado a buril em prata, ouro ou cobre e se destinava a ornar chapéus, cintos e caixas. Foi realmente a origem da gravura em metal, trazendo a abertura de novos horizontes.


Obs. Foi somente em 1796, através da descoberta de Aloys Senefelder que a litografia (desenho sobre a pedra) é somada aos outros meios de reprodução.


No Brasil, o aparecimento das diversas técnicas não seguiu a mesma ordem e o trabalho litográfico foi bem cedo adotado. Em 1817 chega o francês Armand Julien Pallière - contratado por D. João VI para fazer retratos e paisagens - e em 1822 começa a trabalhar em lito nas oficinas do Real Arquivo Militar.



P.S.



Esta é a minha gravura, disputada palmo a palmo com o simpático cartunista Chico Caruso na Laura Alvim. Depois de repararmos que tínhamos selecionado exatamente as mesmas três, ele disparou:
ـ Já sei porque gostamos das mesmas. Você é arquiteta!
ـ Sou, como você percebeu?
ـ Porque eu também sou.



(Para melhor entenderem este olhar arquitetônico leiam Profissão Arquiteto: INVISTA! e INSISTA)
 
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