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deixa a vida me levar
Posted at 18/11/08 by Solange Casotti
deixa a vida me levar*


Não sonho fixo,
sonho trêmulo,
Oh! O sacrifício,
quem inventou isto?
Os ricos
ou Jesus Cristo?


(O Sacrifício, poema publicado em Tectônicas, Editora Bem-te-vi, 2007)



loucas varridas, G. Secchin, 2007


Não sei se existe realmente a casca do ovo ou se a gente constrói um invólucro. Botei a cara do lado de fora e vi cada coisa linda, continuei protegendo a pele que até então não havia estado tão exposta.


Experimentando aquela nova sensação, corri perigos, assumi riscos. E curtida avancei pelos campos de trigo e de girassóis, pelos pastos, pelos rios e oceanos.


Entrei numa grande correria enquanto os olhos se enchiam, dia a dia, minuto a minuto de novidades, de paisagens, de idiomas e povos que cresceram com outro nome, construíram uma cultura muito peculiar, muito mais antiga que a minha de origem, que também não deixa de ser uma soma de todas aquelas.


A generalização dos costumes é real, mas a óbvia universalidade dos sentimentos é fascinante.


Interrompi os questionamentos, tudo passou a ser tão questionável que resolvi apenas decidir o imediato minuto e continuar rindo com meus pensamentos que vagueiam dentro do meu mundo desejado. E me fazem transcender e viver momentos de encantamento dentro do real minuto.

O que acontece é que, tantas vezes, me passam impressões de mundos tão bonitos quanto o meu sonhado, assim flutuo, vôo e volto. Sem querer perder o brio da sensação de estar contente.


A sensação é o próprio ser, não é uma mágica, um fingir, não é uma impressão ilusória, uma ilusão de ótica. Mas a exposição dos nervos a uma experiência que, quando boa, você quer sempre repetir.


Londres, agosto de 1987






Escrevi esse texto há 21 anos e penso que ele não envelheceu, eu sim, mas continuo me identificando com esses pensamentos.



loucas varridas, G. Secchin, 2007


A história das coisas


Este é o link para um vídeo de 20 minutos sobre a economia de materiais nos EUA . Achei muito bom o modo como analisam a loucura que se tornou o mecanismo de produção de mercadorias e a vida dos americanos. De acordo com essa pesquisa, 99% das coisas que eles consomem são lixo em 6 meses. Parece demasiado, mas não é exagero quando dizem que a economia impõe um nível de consumo em que eles precisam que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas em um ritmo cada vez maior. Na economia globalizada distinguimos muitos pontos em comum com o nosso país. O valor pessoal de cada indivíduo não pode ser estabelecido pelo nível de consumo.


Num momento em que só se fala em crise mundial e onde os governos estão fazendo de tudo para injetar dinheiro e salvar as grandes corporações, eu pergunto: não é hora de se pensar em algo novo e incluir nisto tudo uma coisa chamada sustentabilidade? Atenção: até a sustentabilidade ficou na moda e é usada como jogada de marketing. Chega de valorizar o produto mais que o humano.


Dica: SEM LOGO, de Naomi Klein, Editora Record, 2002. O livro da jornalista analisa o mecanismo de produção das grandes marcas como Nike, Reebok, McDonald’s dentre outras. É impressionante a exploração da mão de obra e os gastos exorbitantes com publicidade. “Mixando a paixão de ativista com sofisticado comentário cultural, Naomi Klein constrói formulações reveladoras sobre o reino das marcas. A autora aponta os efeitos negativos deste mecanismo na cultura, no trabalho, na educação e nas escolhas do consumidor.”


Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor**


* Zeca Pagodinho
**Brasil Pandeiro, Assis Valente
 
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    o tempo passou na janela
    Posted at 31/10/08 by Solange Casotti
    “o tempo passou na janela”*


    Nenhuma daquelas palavras
    serviria
    para ser dita,
    no entanto escritas,
    faziam certo sentido
    que estourava
    nos lábios
    riscos
    de fogos
    de artifício.


    Aquilo que parecia
    descontrole
    seria, de outro ângulo
    soberba,
    intrépida desculpa d’alma,
    saber silencioso
    de intervir
    no destino traçado.


    (Fogos de artifício, poema publicado em Tectônicas, editora Bem-te-vi, 2007)



    detalhe, Maritza Caneca


    Um chá com Clarice


    Após a exposição A Hora da Estrela no CCBB do Rio de Janeiro (terminou dia 6 de outubro), me sentei no salão de chá do Centro Cultural e comecei a lembrar do impacto que tive, ao ler A Paixão Segundo GH na década de 1980. E fui revendo as coisas que havia anotado durante o percurso ....


    “Ver é a pura loucura do corpo.” Água Viva


    “Quem sabe se comecei a escrever tão cedo porque escrevendo, pertencia um pouco a mim mesma.” A Descoberta do Mundo


    “Essa coisa sobrenatural que é o viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar." A Paixão Segundo GH


    “Você há de me perguntar porque tomo conta do mundo. É que nasci incumbida.” Água Viva


    “Criar não é imaginação é correr o grande risco de se tornar realidade.” A Paixão Segundo GH


    “Alegria de encontrar na figura exterior (refletida no espelho) ecos da figura interna. Ah! Ah! Então é verdade que não me enganei, eu existo.” A Descoberta do Mundo


    “E quando acaricio a cabeça do meu cão sei que ele não exige que eu faça sentido ou me explique.” A Hora da Estrela


    Ferreira Gullar e Júlia Pelegrino foram os curadores da exposição. Os designers, Daniela Thomas e Felipe Tassara cobriram todas as paredes de uma das salas com inúmeras gavetas. Algumas podiam ser abertas; como uma caixinha de surpresas, encontrávamos manuscritos e documentos de Clarice. No vídeo, ela fala que se sente ao mesmo tempo tímida e ousada, também diz assim: “não sou profissional, só escrevo quando quero”.


    Tectônicas


    A origem desses gritos
    está na desordem do inferno
    que já queimou,
    já molhou,
    já secou.


    Fama maior
    que a realidade,
    entorpeceu a forma,
    distraiu o espírito.


    Danou-se a ficar por baixo,
    caiu nas trevas,
    suspirou em direção ao bonde
    do chamado desejo.


    Acudida,
    foi solucionada,
    até evaporar-se
    o sentido de vítima.


    No ventre,
    denominou-se histeria,
    tectônicas melodias
    de uma voz bombardeada.


    (poema publicado no livro de mesmo título, Editora Bem-Te-Vi, 2007)


    Ao ler O Instante Eterno (Editora Zouk, 2003) do Sociólogo Michel Maffesoli, fiquei surpresa ao me deparar com o título que eu havia escolhido para o livro, também como uma metáfora – dali veio a epígrafe:


    “Porque uma ecologia do espírito e uma ecologia do mundo mostram que, de tanto querer dissecar a natureza, acabamos por destruí-la. Esse é o risco maior dessa virada de século. Trata-se certamente, da natureza circundante, mas também, da natureza que está em nós: corpo individual e social, constituído de emoções, de afetos, de subjetividades, de humores, cuja interação e correspondências são das mais fecundas. Os autores vitalistas, apesar de ou graças a suas diferenças permitem, justamente, pensar que existe uma 'tectônica da natureza', que serve de fundamento ao ser no mundo, individual ou social.”



    sombra de dúvida, Maritza Caneca


    Verso de um resto,
    sopapo de medo,
    cama de desafio.


    Não aprendi a viver agora.


    (poema publicado em Ventanias, Sete Letras, 1997)


    dica: eu já havia assistido a O Gosto dos Outros no Cinema. Agora vi Questão de Imagem no DVD, excelente! Ambos são da diretora francesa Agnés Jaoui e disponíveis nas locadoras. Estão classificados como comédia. Não sei, tenho minhas dúvidas quanto a esta classificação.


    *Carolina, Chico Buarque


    obs: As fotos foram gentilmente cedidas por Maritza Caneca, diretora de fotografia com diversos trabalhos para cinema, DVDs, comerciais e clips. www.maritzacaneca.com.br
     
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    a primavera chegará
    Posted at 15/09/08 by Solange Casotti
    a primavera chegará,


    mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la.*



    G.Secchin


    É, calhou de ser assim,
    um momento estúpido,
    quante stupidàggine!


    Solicito fórmula especial para contagens
    regressivas.
    Desabaladamente,
    desperto para a atualidade,
    súplica:
    salvem águas.


    Súplica
                plica
                    ica


    (Súplica, poema publicado em Tectônicas, Editora Bem-te-vi, 2007)


    O aquecimento global já chegou, não está sendo esperado, ele está aí, é evidência científica. Em 2007, cientistas do mundo todo se reuniram no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e comprovaram. Portanto, não vai adiantar fugirmos para Pasárgada, nem Maracangalha.


    Num mundo em que pouquíssimos estão conectados às questões éticas, falar sobre ética transgeracional? Que lixo é esse que vamos deixar para as próximas gerações? Temos o direito de deixar o mundo inabitável?


    A questão é: educação é a única forma de sair do abismo. Consciência ecológica pode ser ensinada, como? Se ensinar, o povo aprende. Consciência política para pressionar o governo. Pensar local e agir global. Ou seria, pensar global e agir local? Tanto faz, contanto que pense e aja com bom senso.


    Vamos imaginar uma lei, algum mecanismo, que obrigue filhos e netos de políticos a estudarem em escolas públicas, todos os descendentes de presidentes, governadores, prefeitos, deputados, vereadores, e até ministros e magistrados. Cada escola pública teria uma cota e receberia tantos alunos. Aposto que cuidariam da educação de forma diferente.


    Voltando ao aquecimento. Mesmo que a humanidade faça tudo o que pode para diminuir o efeito estufa e a produção de gazes, o estrago é irreversível. Dizem as manchetes: Nem inverno impede degelo da Antártica. No Ártico, degelo acelera e alimenta aquecimento na Terra. Este ano, pela primeira vez na História, o Pólo Norte pôde ser circunavegado.


    As chuvas estão mais concentradas, frio e calor cada vez mais intensos. Água e energia transformam-se em tesouros cada vez mais caros. Do jeito que utilizamos os recursos naturais, como o planeta atenderá a uma população que deve chegar a 9,2 bilhões em 2050?


    “Um dos maiores críticos do Big Bang, Mário Novello, do Centro Brasileiro de Pesquisa Física (CBPF), propõe uma nova teoria para explicar a origem do universo: ele seria eterno, como também cíclico. A explosão que para muitos teria dado origem ao Cosmos seria, na verdade, um momento recorrente num ciclo eterno de retração e expansão (...) – Isso (o Big Bang), não tem nada a ver com verdade científica – afirma Novello, você pode provar um dia, que houve retração e expansão, mas não pode provar o Big Bang.” O Globo, 15 de julho de 2008


    Começou a funcionar, agora em setembro, o mais potente acelerador de partículas já construído, o LHC (Large Hadron Collider). Localizado na fronteira da Suíça com a França, cerca de 100 metros sob a superfície da Terra. O projeto teve início há vinte anos, custou mais de 3 bilhões de euros e envolve o trabalho de cerca de 10.000 cientistas de mais de 500 universidades. Num túnel de 27 km, a supermáquina vai acelerar prótons (partículas contidas no núcleo de átomos). Essas colisões produzem diversos outros tipos de partículas, permitindo aos físicos investigarem o que compõe a matéria e a energia no nível mais elementar. Ao promover colisões entre íons de chumbo para criar um inferno energético, estarão reproduzindo um estado semelhante ao estado da matéria logo após o Big Bang.


    Será que, um dia, encontrarão explicação para tudo no Universo?


    Na terceira guerra deveria se impor a luta do homem pela natureza.


    (poema publicado em Ventanias, Sete Letras, 1997)



    G.Secchin


    "A vida só é possível
    reinventada.


    Anda o sol pelas campinas
    e passeia a mão dourada
    pelas águas, pelas folhas...
    Ah! tudo bolhas
    que vêm de fundas piscinas
    de ilusionismo.... – mais nada.


    Mas a vida, a vida, a vida
    a vida só é possível
    reinventada.


    Vem a lua, vem, retira
    as algemas dos meus braços.
    Projeto-me por espaços
    cheios da tua Figura.
    Tudo mentira! Mentira
    da lua, na noite escura.


    Não te encontro, não te alcanço...
    Só – no tempo equilibrada,
    desprendo-me do balanço
    que além do tempo me leva.
    Só – na treva,
    fico: recebida e dada.


    Porque a vida, a vida, a vida,
    a vida só é possível
    reinventada."


    (Reinvenção de Cecília Meireles, Flor de Poemas, Editora Nova Fronteira, 1983)


    “Mundo mundo vasto mundo”**
    se eu me chamasse Bainho, eu seria muito querido.


    * Cecília Meireles
    ** Carlos Drummond de Andrade
     
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    eu vou pra Maracangalha eu vou
    Posted at 21/08/08 by Solange Casotti
    “eu vou pra Maracangalha eu vou”*


    lá sou amigo do rei......
    lá eu ouço Caymmi
    e quando estiver cansada
    deito na beira do mar


    vou-me embora pra Maracangalha,
    se ninguém quiser ir,
    eu vou só, eu vou só......




    moçambique, técnica mista sobre papel, 2004, G.Secchin


    Sonho com uma bela caligrafia e uma perfeita coordenação entre pensamento e palavra – certa cadência com a qual seria capaz de realizar clara comunicação. Falo de uma necessidade pessoal de transportar um mundo imaginário para um mundo concreto.


    Procuro maturidade para olhar os fatos. O lado prático? Muitas vezes termino fuxicando coisas perdidas, amarrando âncoras sem porto, costurando rede sem peixe. Fico boiando. Preciso de fogo, ar, terra e uma sacudida.


    Quando encontro a palavra certa para descrever algum fenômeno é como se estivesse angariando fundos para uma perfeita comunicação. Por outro lado, a linguagem parece que vem se restringindo. E as pessoas cada vez mais caladas!


    Escrever é percorrer, fazer o incontrolável continuar, aliado ao simples e natural sabor das águas.


    Agora, é cuidar para que o querer continue força motriz. Cuidar para que o corpo responda a esse querer.


    As dores fazem parte do mundo. As flores crescem bonitas. Arrancadas, o cheiro continua no ar, até que o tempo passe.






    Sabe que sei escrever com água?


    Boiar significa calma.
    Nadar quer dizer ir.
    Bahia
    quer dizer beleza,
    pôr do sol
    saudade.


    Embarcar na vida,
    caminhar na beira,
    sonhar com mergulho,
    dar.

    Molhar, molhar, molhar,
    ter esperança…


    Procurar companhia,
    dividir,
    selecionar a vida,
    existir.


    (Bahia é um poema inédito escrito em Salvador em 2003)




    Mundorama, técnica mista sobre papel, 2004, G.Secchin


    “Navegar é preciso” **
    sobreviver também é preciso....


    Dica: jazz e música erudita da melhor qualidade com programação elaborada por Júlio Balsini e Delson Dias
    http://www.radioon.com.br


    * "Eu vou pra Maracangalha" de Dorival Caymmi
    misturado a "Vou me embora pra Pasárgada" de Manuel Bandeira


    ** "Navigare necesse; vivere non est necesse" -no original em latim. A frase é atribuída a Pompeu, general romano (106-48 aC.). Está em “mensagem” de Fernando Pessoa e na música “os argonautas” de Caetano Veloso.
     
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    eu deveria ter cantado - encontro com Zaratustra
    Posted at 30/07/08 by Solange Casotti
    Em “assim falou Zaratustra”, Nietzsche faz uma crítica à racionalidade que marcou a filosofia desde Sócrates. O próprio autor, anos depois, criticou o livro, indagando: Que sentido tem uma crítica? – E concluindo: Eu deveria ter cantado.


    A minha curiosidade pela filosofia não é recente, meu amadorismo idem. Li este livro há vinte anos. Na época, vi no jornal que o Hamilton Vaz Pereira iria fazer uma oficina de dramaturgia sobre o Zaratustra, eu andava encantada com a leitura, fui lá. Foram poucas aulas, fiquei impregnada daquela busca pelo super-homem e tive a certeza de que não levava jeito para representar.


    Há pouco tempo, a atriz Bia Junqueira me convidou para assistir a uma leitura de uma adaptação do livro no Teatro Tablado. Lá estava o Hamilton, seu amigo o filósofo Roberto Machado e mais 12 atores. O texto evoluiu, assim como o herói do livro. Foi uma farra!



    splash, Maritza Caneca


    Zaratustra começa se isolando numa montanha em busca de um certo conhecimento, o sentido da Terra. Seus amigos são a águia e a serpente, o mais altivo e o mais prudente dos animais.


    “O homem é uma corda estendida entre o animal e o super homem – uma corda sobre o abismo. Amo as florestas, o deus que criei foi obra e loucura do homem, como todos os deuses. Sofrimento e impotência criaram os deuses.”


    A certa altura Zaratustra resolve sair da montanha, vai ao encontro dos homens. Vive como um andarilho, uma série de acontecimentos pitorescos se sucedem: encontra um espanta-moscas, a virtude que dá, o joio que quer chamar-se trigo, homens que não passam de um grande olho, uma grande boca, homens feitos em pedaços, até que encontra a hora mais silenciosa.


    “Não te escondes atrás da tua teimosia, fala a voz do leão. São as horas silenciosas que trazem a tempestade. Ainda precisa tornar-se criança e não sentires vergonha. Encontrei mais perigo entre os homens do que entre os animais. A pequena razão, a que chamamos espírito também é corpo. Espírito também é corpo. Vontade, este é o nome do libertador?”


    “Para Nietszche todas as coisas não são coisas, são forças. E a força fundamental é a vontade. E a vontade fundamental é o poder. O poder como o poder da vida, o poder de ver, agir, criar. A realidade de Nietszche não é nem objeto e nem jogo dialético mas a manifestação da vida. Essa é a realidade fundamental de Nietszche. É a vida e o movimento principal do espírito é a de afirmação da vida.”
    Luiz Carlos Maciel *



    espiral, Maritza Caneca


    “Caminho para trás, encontro a eternidade. Caminho pra frente, outra eternidade. E o tempo, o próprio tempo é um círculo. Espírito de gravidade – E se tudo já existiu?”



    “Aprendei a rir de vós próprios como é necessário saber rir.”


    Milhares de reflexões maravilhosas, inquietantes. O livro foi escrito entre 1883 e 1885. O Zaratustra que tenho é uma edição portuguesa onde na tradução de Alfredo Margarido para a Guimarães Editores, 1985, intitula-se assim falava Zaratustra e em seguida: livro para todos e para ninguém. No momento, temos umas três edições disponíveis no Brasil.


    “Quando Zaratustra chegou aos trinta anos, deixou a sua pátria e o lago da sua pátria e foi para a montanha.”


    Agora mesmo ia andar de bicicleta,
    percorrer ruas, caras, gente...
    E preferia que fossem desabitadas
    as casas do meu inconsciente.


    Tenho medo de sair,
    encontrar perigo e morte,
    me arrisco, sou feliz,
    passeiozinho...


    Vitalidade nos sentidos
    provoca expansão,
    movendo a necessidade
    de remover qualquer tranca.


    Tudo tornou-se tão sério,
    agora vem a saudade
    de quando vida era momento
    não uma terra dividida
    num espaço de tempo.


    (Bicicleta, poema publicado em Ventanias, Sete Letras, 1997)



    encontro, Maritza Caneca


    A Universidade Federal de São João del Rei promove, todos os anos, durante o mês de julho, o Inverno Cultural. Eles organizam uma extensa programação de oficinas, shows, teatro, exposições e lançamentos. Estive lá, adorei conhecer o centro histórico da cidade e vi uma bela exposição sobre a vida da cantora Clara Nunes. Lancei o livro Tectônicas em terras mineiras. Junto comigo estiveram mais três autores:


    José Roberto Silveira com Renato Russo & Cazuza, A poética da Travessia, Rock e Poesia nos anos 80, Malta Editores, 2008.


    Mingau com Revista de Literatura Barkaça, Difusão da poesia Contemporânea de Minas Gerais (Divinópolis)


    Ana Elisa Ribeiro, com o livro de poesias Fresta por onde olhar, Editora Interditado, Belo Horizonte, 2008.


    "bem-servida
    (iguaria para servir crua)


    esta carne branca
    crua, quase franca
    quase nua,
    é para ser tua


    pra ser comida rente
    muito quente


    bem-servida
    é pra ser bebida


    na dúvida,
    crava o dente"


    (poema de Ana Elisa Ribeiro, publicado em fresta por onde olhar, editora interditado, MG, 2008)



    infinito particular, Maritza Caneca


    “O mar serenou quando ela pisou na areia…..” **


    * Luiz Carlos Maciel é filosofo, escritor, jornalista, roteirista e diretor de teatro.
    ** o mar serenou – Candeia


    Obs: As fotos foram gentilmente cedidas por Maritza Caneca, diretora de fotografia com diversos trabalhos para cinema, dvds, comerciais e clips. www.maritzacaneca.com.br
     
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    cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é
    Posted at 10/07/08 by Solange Casotti
    “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”*


    Telegráfico


    Berros no chuveiro,
    teoremas matinais.


    Choveram folhas,
    o cinema ficou para depois.


    Toneladas,
    costas pesadas,
    ritmo estressado, lento.


    Densidade mediana,
    à tona, nada viria,
    vaga superfície.


    (poema publicado em Tectônicas, Editora Bem-te-vi, 2007)



    Raiz, técnica mista sobre madeira, 2007, G. Secchin


    ARTE e LINGUAGEM – livres associações


    “A elite cinematográfica chinesa acha que tudo que é comercial é necessariamente ruim e tudo o que é artístico é bom. Eu já vi filmes artísticos e comerciais bons e ruins. O fato é que os diretores mudam, seus projetos ficam diferentes com o tempo, e tenho a impressão de que muitos querem os diretores congelados no tempo. Não posso ser somente o que esperam de mim.”
    Jia Zhangle, O Globo.


    Tenho a impressão de que no Brasil ocorre a mesma coisa nas artes plásticas, pior ainda, existe um preconceito de que o que é arte não pode ser comercial. Mas os artistas também têm suas contas à pagar.

    O escultor Angelo Venosa, em entrevista recente ao jornal O Globo, disse que o artista não tem obrigação de fazer arte engajada. Nem tem a obrigação de mostrar algo novo em cada exposição, “como uma coleção de verão outra de outono”. Também não deve se sentir pressionado a continuar fazendo o mesmo trabalho porque existe uma demanda do mercado. Bravo! O ato criativo é livre.


    “A potência do trabalho se encontra no que não está explicitamente presente”
    Angelo Venosa, O Globo.


    “O movimento não pára e deve ser feito com intenção. O umbigo tem que ficar para dentro, senão perde o eixo, a força. A coluna precisa ser ágil e flexível, para não viver se machucando.”
    Jaquelini Porto


    Nos diferentes segmentos da arte as questões se repetem, fazem parte de uma mesma estrutura, uma coluna sensível.


    Quando publiquei Ventanias (Sete Letras,2007), escrevi: acho pretensioso escrever, mais ainda publicar. Ainda bem que me libertei desse pensamento limitador. Escrever é uma necessidade de expressão, que pode ser livre e direcionada – e vice-versa. Como qualquer linguagem, só se completa ao ser escutada, vista.


    “Detesto a expressão ‘meu livro’: vejo a essência da vaidade pela qual o sujeito se vangloria de qualidades que os outros lhe conferem, uma vez que ele mesmo é um Outro. O livro não é mais o ‘meu pensamento’, uma vez que ele se tornou um objeto no meio do mundo, algo que pertence aos outros e me escapa.”
    André Gorz em Carta a D.– História de um Amor, e Cosac Naify e Annablumme, 2008.
    Veja mais sobre o livro em “pra que rimar amor e dor”


    Cada um lê como quer, cada um vê como pode e chega sozinho às próprias conclusões.



    Cidadão Kane, Orson Wells


    Exercício de Linguagem
    a essência de Claudio Mac Dowell


    Atenção, todas as luzes!
    Confie na linguagem da imagem.
    A ação constrói o significado.
    Aonde? Quem? O quê? Como?


    Melhor que regra: bom senso.
    Escapará do destino?
    Este ponto vai se solucionar
    quando esquecer as regras – incorporar.


    A peça que falta,
    o segredo do quebra-cabeça,
    uma ponte com o mistério.


    Ficção e realidade, pode?
    –Pode, tudo pode.
    Progressão, percepção, plausibilidade.


    Misturar o tempo, pode?
    –Pode, tudo pode
    Espelho, espetáculo, estética.


    –Bom, eu não ia falar agora, mas deixa eu falar.
    Fluidez é não ficar parado.
    Estrutura, a procura da história.


    Muda de espaço, de tempo, muda a seqüência.
    Vamos aqui, baixar à terra, ver o chão
    Comentários? Críticas? Elogios? Cacetadas?


    Simples, é só ter coerência.
    Invenção não se ensina.
    Fade out.



    Nota: Fui aluna do roteirista e cineasta Claudio Mac Dowell (O Toque do Oboé, 1999) de suas palavras surgiram os versos desse poema inédito.


    *Dom de Iludir – Caetano Veloso


    ** Jaquelini Porto é fisioterapeuta e professora.
     
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    sonho e utopia – o sentimento do mundo
    Posted at 18/06/08 by Solange Casotti
    Vale-transporte,
    o pensamento conduz
    o caminho da alma.


    O que passa pelo espírito
    tem mais pudor.


    E o equilíbrio
    de não machucar
    a marcha em que o outro caminha.


    (O caminho da alma, poema publicado em Tectônicas, Editora Bem-te-vi, 2007)


    “ – o direito de sonhar e lidar com outro mundo (a utopia é isso) é o mais importante direito humano. E não figura em nenhuma declaração da ONU. Por mais completos que estejamos, não estamos terminados, e podemos ser desfeitos e refeitos de outra maneira, para que o mundo seja a casa de todos e não um campo de concentração. E para que possamos ver o próximo não como uma ameaça, mas como uma promessa.”
    Eduardo Galeano (em entrevista a Silvio Tendler para Utopia e Barbárie)



    Rubberduck, DeanNorthcott


    Assistindo a um encontro com o mestre espiritual e líder humanitário indiano Sri Sri Ravi Shankar (homônimo do músico), no hotel Sheraton no Rio de Janeiro, entendi por que seus ensinamentos vêm fazendo enorme sucesso.


    Um novo mundo nas palavras de Sri Sri Ravi Shankar:


    “música, silêncio, lógica e harmonia
    Tudo o que o mundo precisa para sair do conflito no qual se encontra, pode estar concentrado nestas quatros palavras. Mesmo em partes do mundo em que poderia prevalecer a lógica e a harmonia, não é o que acontece, nem no mundo das artes, repleta de ciúmes, nem no mundo dos esportes, cheio de brigas.


    O que podemos fazer? Celebrar a vida. Como podemos nos livrar do peso das calamidades naturais e dos problemas causados pelo próprio homem? Nos livrando do estresse. Conseguindo entender a nossa verdadeira natureza. Mesmo nas coisas rotineiras, nas nossas tarefas diárias existe uma alma, uma verdade.


    Reconhecer que existe sofrimento e saber que é possível se livrar do sofrimento. Procurar uma mudança através da espiritualidade. Mudar o pensamento, deixando de nos ocupar do passado e nos preocupar com o futuro. Fazendo um esforço para treinar a mente para estar no momento. Deixar a raiva vir e ir embora. Manter a respiração fluida – existe uma profunda conexão entre respiração e mente. Cada ser humano deve poder usufruir de seu direito de nascença. Que é o de uma memória livre de traumas. Uma alma livre de sofrimento.


    Quem somos nós? Onde estaremos daqui a 30, 40 anos? Esses questionamentos fazem nossa vida mais bonita, fazem com que haja um sentido em viver. Dentro de cada um há um oceano de beleza, amor e sabedoria. Muitos estão sentados em cima deste oceano sem usá-lo.


    Como aliviar o estresse numa sociedade que cria estresse cotidianamente? Meditar e se livrar do estresse. Quanto mais as pessoas se livrarem do estresse, o mundo pode se tornar melhor. Qual o sentido da vida? Não vou te contar e se alguém te contar é porque não sabe. Basicamente, seguir adiante sempre na busca do conhecimento. Perguntar sempre. Como saber se o caminho que estou indo é o certo? Se for sincero, não existe a menor possibilidade de seguir o caminho errado.”



    Grans, DeanNorthcott



    Em certo momento, antes de responder às perguntas da platéia, ele deu conselhos distintos às mulheres e aos homens. Para as mulheres ele disse: “cuidem do ego do marido, inflem o ego do homem”. Para os homens: “Nunca pisem nas emoções de uma mulher. Cuidem das suas vontades, se elas querem ir a um encontro ecumênico apóiem. Se elas querem ir ao shopping, liberem o cartão de crédito”. Este foi um dos momentos em que a platéia mais gritou e bateu palmas.


    Meditar, celebrar e consumir? Ele conseguiu fazer com que as pessoas que compareceram desestressassem um pouco, todos respiramos profundamente, meditamos e falamos o OM. É oferecido um curso de meditação que, não duvido, deve ser bom para equilibrar a energia vital e os chakras. Mas, por que ligar as emoções das mulheres ao cartão de crédito? Aquele público, que pagou para estar ali, precisa consumir sem culpa? Estamos vivendo uma correria e um fluxo de informações enormes. Mas, e depois? E essa massa de exilados sociais que carece de direitos básicos? E o trânsito, a violência, as notícias nos jornais e a realidade a nossa volta? Mas, vamos sonhar... se cada um fizer um pouco.



    Rocky hands, Dean Northcott


    “Tenho apenas duas mãos
    e o sentimento do mundo (...)”
    *


    * do poema Sentimento do mundo de Carlos Drummond de Andrade.


    As fotos foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo DeanNorthcott, amigo neozelandês, radicado em Londres.
    http://www.deannorthcott.com
     
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    como assim? ubuntu e surrealismo
    Posted at 02/06/08 by Solange Casotti
    “Nos anos 1960, havia várias sementes precárias de anarquismo. A internet realizou um sonho anarquista de forma inesperada. Ela permite uma autodefinição enorme. O período atual é tão dinâmico que nem chegamos a entendê-lo direito.”
    Fernando Gabeira, O Globo, 17 de maio de 2008


    Todo mundo está ligado,
    tudo o que a gente faz influencia em volta.
    Ubuntu,
    eu existo porque você existe,
    “gentileza gera gentileza”*


    Ubuntu é um conceito sul-africano que pode ser traduzido como “sou o que sou pelo que nós somos” ou ainda, “humanidade para com os outros”. “A essência do ser humano, só é afirmada se temos conhecimento da dos outros”, disse Desmond Tutu, arcebispo sul-africano, Prêmio Nobel da Paz, um dos disseminadores do Ubuntu.



    Auto-Retrato, 1949-1952
    gelatina / prata tonalizada
    47,1 x 47,0 cm (60,0 x 50,0 cm)
    © Fernando Lemos.


    O poeta-fotógrafo-pintor-artista gráfico
    Fernando Lemos, nasceu em Lisboa em 1926. Antes de imigrar para o Brasil nos anos 1950, morar no Rio de Janeiro e se radicar em São Paulo, fez parte do movimento surrealista português. O surrealismo agitou os países europeus, influenciando o mundo, inclusive o modernismo brasileiro. Livres associações de formas, objetos e idéias; certo anti-racionalismo; o primado da imaginação e da expressão ditada pelo inconsciente são características do movimento que começou na década de 1920 em Paris.


    Conheci o trabalho de Lemos através do livro “À sombra da luz, à luz da sombra – fotografias 1949-1952” (São Paulo: pinacoteca do Estado, 2004). Consegui ver suas fotos numa exposição no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. Em 2006, a Casa do Saber no Rio, realizou uma pequena mostra de seu trabalho fotográfico e apresentou o filme “Fernando Lemos, Atrás da Imagem”, dirigido pelo Guilherme Coelho (o mesmo do excelente “Fala Tu” e de “PQD”, que ainda não vi). Em seguida, pude assistir a uma conversa do Lemos com o documentarista, intermediada pelo crítico de arte Paulo Herkenhoff. Nesta ocasião, tendo captado belíssimas reflexões do multi-artista, tomei a liberdade de juntar alguns fragmentos em um poema homenagem.


    O ESTRANGEIRO LIVRE
    Desdobramentos de Fernando Lemos


    É preciso tirar da arte
    a ameaça que ela constitui
    de adoecer as pessoas.


    A fotografia não é uma linguagem de luz e sombra,
    mas tem a ver com as trevas,
    curiosidade de por no caos a ordem,
    gesto livre que vive por si mesmo.


    Meus trabalhos são desdobramentos constantes
    da minha personalidade,
    desterritorialização,
    cegueira clausura liberdade


    Há um ciúme do gelo pela pedra.
    Matar saudades é uma violência estúpida,
    tenho saudades de ontem.
    A saudade é uma forma sublime de amor.
    Pedra é tempo.


    A qualquer momento,
    posso colocar o dedo no universal.
    O estrangeiro é mais uma dor,
    toda dor é uma vocação,
    liberdade e falta.


    A nuvem foi feita com lã de vidro,
    a única forma que encontrei de segurar uma nuvem.
    Não tenho medo de ser infantil,
    a única coisa que a gente constrói é o nosso destino.
    Já sou enforcado,
    não me enforquem.
    Estou muito agradecido por estar sendo amado.




    Luis Pilar, O Mito da Caverna, 1949-1952
    gelatina / prata tonalizada
    47,0 x 47,0 cm (60,0 x 50,0 cm)
    © Fernando Lemos.


    Em 1952, Fernando Lemos publicou Teclado Universal, um livro de poemas. Posteriormente, já em 1985, a Editora Imprensa Nacional de Portugal, lançou Cá & Lá. Não foi editada no Brasil sua obra poética. Não a conheço, encontrei alguns trechos na internet que reproduzo abaixo.
    (Fernando Lemos: 1985)


    “sentada na própria sombra ouve os passos
    na testa branquíssima onde lhe nasceu a lâmpada”


    “Há em todas as coisas expectativas
    o gesto traz sempre no rosto o seu significado”


    “Sol que vem cinicamente todos os dias verificar o bem e o mal
    ambos sem remédio.”



    Adoro isto, poder misturar ubuntu e surrealismo, Gabeira, Desmond Tutu, Fernando Lemos e .....


    * Profeta Gentileza
    José Datrino, chamado Profeta Gentileza, (Cafelândia, 1917 — Mirandópolis, São Paulo, 1996) tornou-se conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições peculiares sob um viaduto no Rio de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e longa barba. Ele vivia pregando a paz e o amor. Contam que ele jamais pronunciava a palavra obrigado, pois vem de obrigação. Ele preferia falar agradecido e sempre dizia “por gentileza”.
     
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    pra que rimar amor e dor?
    Posted at 12/05/08 by Solange Casotti
    “pra que rimar amor e dor?”*


    Eu vivia rabiscando os livros que lia. Hoje, tenho pena de fazer isto. Trato os livros com muito cuidado. Não tenho coragem de pegar um lápis e marcar as passagens que considero mais bonitas ou inquietantes.


    Carta a D. – História de um amor (Cosac Naify e Annablume, 2008) é uma pequena jóia. Quanta coisa poderia sublinhar? Com quase vinte livros publicados, oito deles no Brasil, todos sobre teoria social e política, o filósofo e jornalista André Gorz, austríaco naturalizado francês, faz um relato sincero de seu amor por Dorine, com quem viveu por quase sessenta anos.


    “É isto: a paixão amorosa é um modo de entrar em ressonância com o outro, corpo e alma, e somente com ele ou ela. Estamos aquém e além da filosofia.”


    “Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.”


    “Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições ou afetos, não há nem inteligência, nem sentido.”



    Logo que o conheceu, Dorine percebeu sua necessidade de escrever para viver. Ela o incentivava sempre. Gorz criticava a mercantilização das relações sociais, foi discípulo de Sartre, precursor da ecologia política e co-fundador da revista francesa Nouvel Observateur.


    “Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro”


    Ele precisou de Carta a D. para ter coragem de escolher a morte, assim o fez. Dorine sofria há vinte anos de uma doença degenerativa e estava muito mal. Os dois partiram juntos em 22 de setembro de 2007.



    no mundo, G Secchin


    Outro livro que gostei muito é Sobre o Amor (Boitempo Editorial, 2007) do Leandro Konder, filósofo, professor da PUC RJ, com mais de vinte livros publicados. Konder nos faz viajar pela vida e obra de poetas, ficcionistas e ensaístas de diferentes épocas. De Platão a Drummond, são 23 personagens reais e o amor. Só para citar alguns, temos: Freud, Camões, Rosa de Luxemburgo, Simone de Beauvoir. No capítulo intitulado “Guimarães Rosa, o amor, o sertão e o diabo”, ele escreve sobre um dos amores mais lindos da literatura brasileira.


    “Riobaldo confessa que, a partir de um certo ponto, sentia falta do cheiro de Diadorim. “Meu corpo gostava de Diadorim”. Não dava mais para considerar aquilo amizade. Era amor mesmo, “mal encoberto em amizade”. Em poucas frases, de uma notável agudeza dialética, Riobaldo recorda: “Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só pensava nele. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não.”



    o baile, G Secchin


    Dançando no escuro


    Para dizer de amores
    que chegam devagarzinho
    apreciam,adquirem substância,
    consomem aparências.
    Que dizer de amores assim, puros?


    Soletrar caminhos,
    fugir do óbvio?
    Descobrir cada postura confortável.
    – Aceitar o óbvio.


    Que dizer de não estragar prazeres?
    Prazeres e culpas, dores?
    Soletrar o medo
    e cansar.
    Apanhar de surpresa algum espírito,
    soletrar a vida
    e existir.


    De olhos abertos
    simplificando o passo,
    relaxando no caminho suntuoso.


    De olhos fechados,
    passando a limpo sutilezas,
    o essencial destaca.
    Let’s dream!


    (poema publicado em Tectônicas, Bem-Te-Vi, 2007)


    * Mora na filosofia, Monsueto e A. Pessoa
     
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    existirmos, a que será que se destina?
    Posted at 28/04/08 by Solange Casotti
    “existirmos, a que será que se destina?”*


    A noção de que a força do pensamento pode mudar nossa vida - intensamente explorado pelas religiões e livros de auto-ajuda - ganhou respaldo científico do norte-americano Bruce Lipton. Ele publicou no Brasil “A Biologia da Crença” (Butterfly Editora, 2007).
    Ou seja, mesmo que não tenhamos herdado os genes da felicidade (ver é melhor ser alegre que ser triste), podemos transformar o nosso DNA. Suas pesquisas mostram que todas as células do corpo são influenciadas pelas nossas projeções mentais. Isto nos coloca ainda mais responsáveis e no controle de nossas vidas.


    Pára e pensa: Eu aprendi...
    ...que não posso escolher como me sinto,
    mas posso escolher o que fazer a respeito.





    Café da manhã


    Acordo,
    transbordo,
    palpitações,
    não lembro,
    o que sonhei,
    não sofro precipitadamente,
    se corro algum perigo,
    não morro sem motivo.


    Lavo o rosto,
    clareio a pele,
    adoço o hálito.
    Forrado o estômago,
    esqueço o atraso,
    sento e leio,
    mas me chama a obrigação,
    corta meu coração
    os filhos que abandono.


    (poema publicado em Ventanias, Sete Letras, 1997)


    Estive na Escola Nova da Gávea, assistindo a uma palestra do psicanalista César Ibrahim sobre educação, pais e limites.
    Fiz várias anotações, vou lhes contar da maneira como ouvi.


    Diante da perplexidade e exaustão dos pais nas relações com os filhos, esta é a segunda vez em que o César é convidado. Está acontecendo um esvaziamento da autoridade da família. A família vem procurando transferir sua responsabilidade para as instituições. Temos como exemplo, o que aconteceu numa segunda-feira: a escola recebeu um telefonema de uma mãe pedindo para que a professora deixasse o filho sem recreio. Diante da pergunta da coordenadora sobre o motivo, a mãe respondeu que o filho havia aprontado muito no fim de semana e estava precisando de um castigo.


    Na tentativa de preservar as crianças e os adolescentes de toda dor e sofrimento, os pais se envolvem em inúmeros equívocos, nesta “missão” de fazê-los felizes. A dificuldade dos pais em dizer não, colocar limites, pode estar relacionada a sintomas da incompetência em lidar com as próprias frustrações. Tornar-se adulto é suportar o fluxo de frustrações. A vida é dolorosa e vai impor sacrifícios.


    Na melhor das intenções, a excessiva carga amorosa mantém, às vezes só com o olhar, o filho aprisionado ao pai e à mãe, numa relação patológica de dependência, sustentada indefinidamente por ambas as partes. Muitas vezes, a infelicidade dos bambinos é vivida como uma sensação de incompetência dos pais.


    Se os limites impostos cotidianamente às crianças forem frouxos, isto enfraquecerá a relação da criança - futuro sujeito - com o mundo. Para se tornar um cidadão, ela terá que destituir-se da onipotência narcísica de ser o centro do mundo. A criança sai de casa como um príncipe, na escola ela tem que deixar a nobreza de lado e lidar com a coletividade. Saber que o outro deve ser respeitado e aprender a conviver com as diferenças.


    Não temos como fugir da ladainha: banho, escovar os dentes, dever de casa, hora de dormir. E mais tarde, cuidado com a bebida, use camisinha...


    Os direitos podem ser adquiridos como uma espécie de negociação a partir de deveres cumpridos. Ele nos aconselha a entrar em contato com as nossas próprias convicções e intuições. É preciso coragem para isto. Ensinamos com a palavra e com a vida, funcionamos como espelho. Como disse uma amiga: educar é ser coerente.



    G. Secchin


    Minha vida é andar por esse país**


    Imperdível!!!
    Não deixem de ver, ainda está nos cinemas - Irina Palm, filme do diretor Sam Garbarski com a atriz Marianne Faithfull . Se você não sabe nada sobre a história, melhor ainda, bom divertimento!


    * Cajuína Caetano Veloso


    ** A vida de viajante, Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil
     
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    é melhor ser alegre que ser triste
    Posted at 09/04/08 by Solange Casotti
    "é melhor ser alegre que ser triste"*
    Alguma dúvida?
    Somos 50% responsáveis pela nossa felicidade, o resto vem no DNA.


    “Felicidade nos Genes: até 50% dos níveis de felicidade de cada indivíduo seriam atribuídos aos seus genes. Pelo menos é o que sustenta a especialista da Universidade da Califórnia, Sonja Lyubomirsky, que se dedica a estudar o tema há 18 anos e está lançando “A ciência da felicidade” (Ed. Campus- Elsevier). Segundo o livro, somente 10% seriam relacionados a condições de vida, como riqueza e pobreza, saúde ou doença. Os demais 40%, sustenta a pesquisadora, são ligados a pequenas ações e gestos cotidianos.”
    O Globo 30/01/2008



    Marcelo Mastroianni– Filme 8 1/2 de Fellini


    “O que é esta faísca de felicidade
    que me faz tremer, me dá forças?
    Desculpem doces criaturas, eu não tinha entendido,
    não sabia...
    Como é justo aceitar, amar vocês, e como é simples!
    Sinto-me como que libertado.
    Tudo me parece bom, tudo tem um sentido, tudo é real!
    Como eu gostaria de saber explicar,
    mas não sei dizer.
    Pronto, tudo está de novo como antes, tudo está confuso.
    Mas esta confusão sou eu.
    Eu como eu sou, e não como eu queria ser,
    e não tenho medo de dizer a verdade, aquilo que não sei,
    que procuro e não achei.
    Só assim vivo e posso olhar seus olhos fiéis sem sentir vergonha.
    A vida é uma festa, vamos vivê-la juntos!
    Só sei dizer isto, a você e aos outros.
    Aceite-me, se puder.”

    Fala de Guido, personagem de Marcello Mastroianni em 8 e ½ de Fellini





    Eu nasci Solange Moreira Casotti, sou capixaba de Cachoeiro de Itapemirim e moradora da cidade do Rio de Janeiro há mais de 25 anos. Escrevo poesia desde a adolescência. Publiquei dois livros: Ventanias (Sete Letras, 1997) e Tectônicas (Bem–Te-Vi, 2007). Faço roteiros para programas de televisão. Tenho escrito contos. Estão em andamento: uma novela e uma peça de teatro.
    Adoro casa, família, amigos, viagens, música, comida, literatura e arte.
    Tenho medo da violência.


    Um poema meu:


    Classificados


    Alugo aqui
    um espírito que
    não me empresta
    um ritmo bom,
    uma paz.


    Vendo
    peça única
    de ânsia mal resolvida.
    Faço doações
    de críticas
    e mágoas.


    Procuro sonho ou utopia
    que combinem.
    Aceito
    crédito zero
    e coragem.


    Entregas a domicílio.


    (poema publicado em Ventanias, Sete Letras, 1997)





    “e a tristeza tem sempre uma esperança”*
    *Samba da bênção
    Vinicius de Morais
     
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